Setembro
Amarelo é
uma campanha brasileira de prevenção ao suicídio, iniciada em
2015.
É
uma iniciativa do Centro de Valorização da Vida (CVV), do Conselho
Federal de Medicina (CFM) e da Associação Brasileira de Psiquiatria
(ABP).
Episódios
Amarelos
1) Quando
eu tinha 14 anos o mar estava forte e (uma vez na praia do Leme e
outra na praia de Ipanema) entrei no mar e quase morri afogado. (Eu
achava que era indestrutível e que nada de mal me aconteceria). Eu
não conhecia a correnteza e (como sabia nadar) achei que tudo daria
certo. Talvez tenha sido uma tentativa inconsciente de me suicidar.
Mas passei a respeitar o mar, e não entrar quando ele estivesse
forte.
2) Eu
gostava de ver futebol noturno no colégio (da janela do meu quarto).
Eu morava no 15° andar. Como os jogos demoravam eu trancava a porta
do meu quarto, apagava a luz e sentava no parapeito da janela e via
os jogos. Na época eu tinha 16 anos. Não sei dizer se foram
tentativas de suicídio. Meu diagnóstico só ocorreu aos 42
anos. Mas foi um flerte coma morte.
3) Aos 21 anos fui ao Maracanã sozinho para ver a decisão do campeonato Brasileiro. Foi Flamengo X Atlético mineiro (que jogava pelo empate). Na época as arquibancadas eram em forma de degrau. Foi um jogão, o Fla ganhou por 3 X 2 e foi campeão. Acho que ir sozinho com aquela multidão toda foi (no mínimo) uma imprudência. Mas gerou uma euforia fantástica. Foi muito bom. Me orgulho de ter ido àquele jogo. Mas poderia ter ferimentos decorrentes desta escolha.
4) Aos 26 anos, levei uma bolada no testículo, que começou a crescer até ficar maior que um ovo de galinha. (Eu tive medo de ir ao urologista). Ele retirou o testículo e a biopsia mostrou que eu estava com um câncer de adulto jovem. Por ter demorado a ir ao médico eu estava com metástase nos pulmões.
Tive
que fazer várias sessões de quimioterapia. A uma certa altura eu
queria interromper o tratamento e morrer. Até hoje não sei porque
mudei de ideia.
Eu
não tinha memória. Não entendia o que lia. Vivia desanimado. Só
queria dormir. Estava pálido como uma vela. Não me interessava por
nada. Me sentia um peso p/ minha família.
5) Aos 42 anos (já diagnosticado como Bipolar tipo2 ciclo rápido) fui ao Maracanã p/ ver um Fla-Flu. O Fla ganhou de goleada. Fiquei eufórico. Fui ao calçadão do Leme c/ a minha bandeira do Fla. Eu estava sóbrio e careta e passou um Homem me provocando. Eu percebi que se eu brigasse eu levaria a pior. Blefei dizendo que estava armado mas não queria atirar nele (a menos que ele me obrigasse). Para minha sorte ele foi embora.
6) Entre os 44 e 47 anos tive 3 episódios depressivos. Aos 44 anos eu morava no 12º andar. Estava há vários dias sem (tomar banho, fazer a barba, escovar os dentes, usar desodorante). Ficava o dia inteiro olhando para o teto. Até que senti um impulso grande de pular p/ o térreo pela área de serviço. Então percebi que, se continuasse ali acabaria pulando. Vesti uma roupa, calcei um tênis e fui para a casa da minha mãe.
7) Aos 54 anos, trocaram a a minha medicação e fiquei andando sem noção de profundidade. Se caísse na rua ou caísse nos trilhos do metrô achariam que foi uma tentativa de suicídio, quando na verdade foi um efeito colateral da medicação.
8) Sou
solitário. Estou (aos poucos) construindo uma rede de proteção.
Melhorei o meu relacionamento com o que restou da minha família.
(Conto com os 3 membros que a compõem).
As
outras pessoas que conheço sumiram no período após a cirurgia no
cérebro. Foi bom porque pude constatar com quem eu posso contar.
O
solitário é uma presa fácil das dificuldades da vida (e do
suicídio). O animal solitário/desgarrado é uma presa fácil dos
predadores.
9) O preconceito é uma espécie de suicídio aos poucos. Através dele me afasto das pessoas que tem um comportamento que tenho dificuldade de aceitar. Estou me esforçando p/ diminuir meus preconceitos. Mas é um processo lento e complexo. Já melhorei e pretendo continuar progredindo.
10) Considerações
finais: Narrei suicídio inconsciente, flerte com a morte,
imprudência que poderia gerar ferimentos, protelar a ida ao
urologista e vontade de morrer no tratamento de câncer no testículo,
Blefei arriscando a minha vida, 3
episódios depressivos (o primeiro com impulso p/ pular do 12°
andar).
Interpretação
de tentativa de suicídio quando era efeito colateral da medicação,
solitário como presa do suicídio, preconceito como um
suicídio aos poucos.
11)
Conclusão:
Leitor. (Convido-o para refletir sobre cada item, procurando
identificar em cada item se foi uma tentativa de suicídio ou não).
Espero
(com este texto) tê-lo ajudado.
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